segunda-feira

Temporada com número recorde de 15 navios deverá provocar efeitos nefastos à hotelaria

Os navios estão chegando... Durante o evento Cruise Day 2007, realizado em São Paulo, foram anunciados o desembarque de 15 navios para 2007/2008. O volume cresceu quase duas vezes e meia desde do início de 2004. A falta de estrutura dos portos brasileiros para este volume é tão assustadora, que os próprios armadores estão disputando a tapa as vagas para evitar um colapso operacional, principalmente no porto de Santos.
Em alguns casos, a situação é critica, como Búzios. Sem escalonamento, o colapso na cidade é absoluto. Como as datas de saída seguem um mesmo calendário (Natal, Réveillon, Carnaval etc) é impossível tirar a sincronicidade das saídas. Estamos à beira de um apagão portuário por completo despreparo operacional de cidades que seriam visitas, como é o caso de Vitoria, Ilhéus, Angra, Cabo Frio, Florianópolis, Salvador, só para falar das principais.
No ano passado foram 300 mil turistas e neste ano o volume será ainda maior. Na realização do Cruise Day ficou claro que tudo está correndo muito solto, sem uma regulamentação, sem um controle e uma organização central. Foi o que levou o presidente da Abremar, Eduardo Vampré do Nascimento a ser recebido, junto com Guilherme Paulus, da CVC, pelo Ministério do Turismo, quando foi tentando ressuscitar uma decreto que outorgava ao então Ministério do Turismo e dos Esportes a regulamentação do setor.
Ao se conhecer o gigantismo do setor, achar que não há impacto nesta operação no fluxo turístico nacional é tapar o sol com a peneira. São 15 navios de bandeira estrangeira, com as suas operações pagas em dólar, atuando exclusivamente na alta estação, que geraram, segundos dados da Abremar, na ultima alta estação apenas 1377 empregos a bordo. É o equivalente ao número de funcionários de três resorts de porte médio. Só o Complexo de Sauípe gera 3.100 empregos diretos. A média de funcionários brasileiros a bordo é de 130 pessoas por navio, ou seja, menos de 20% do empregos gerados que são todos ocupados por estrangeiros.
O setor mais atingido, os 40 resorts brasileiros, geram conjuntamente 16 mil empregos diretos, e isso não apenas na alta temporada como é o caso dos cruzeiros de cabotagem. Nos hotéis o emprego é durante todo o ano.
Enquanto existe uma visível proliferação desordenada dos cruzeiros de cabotagem no mercado brasileiro, as viagens dos cruzeiros internacionais, aqueles que trazem estrangeiros para o Brasil e que trazem divisas, são obstruídas por uma legislação estúpida e protecionista. Como a costa brasileira é muito grande, os transatlânticos estão impedidos de operar em mais de um porto no País, ou seja, não se pode atracar em Salvador e no Rio. Ligar duas cidades em uma só viagem o fazem cair na regulamentação de cabotagem. O Rio, que concentra as maiores paradas, recebeu no ano passado apenas 44 navios estrangeiros. O número poderia ser maior se houvesse uma multiplicidade de destinos no País.
Em todo o mundo, a regulamentação da cabotagem visa também proteger a indústria naval. Se o negócio é tão bom, está na hora de se criar mecanismo para que tenhamos os nossos próprios barcos. Um país que constrói avião a jato e que possui uma indústria naval instalada, capaz de produzir superpetroleiros, poderia fabricar navios de bandeira brasileira para operarem no nosso litoral. O grande problema é que os nossos navios estariam restritos ao mercado brasileiro, já que nenhuma outra nação que tenha a costa marítima que possuímos tem uma legislação tão liberal que permita a evasão de divisas e a concorrência com a base hoteleira instalada.
Colocar o Ministério do Turismo como agente de regulamentação neste jogo, como sugeriu a própria Abremar é colocar uma luz neste fim de túnel. É colocar ordem na casa, estabelecer prioridades para uma operação sadia e que equilibre os efeitos nocivos deste crescimento desenfreado.
Se os próprios cruzeiros de cabotagem estão à beira de um colapso operacional pela falta de ordenamento dos portos e das escalas, imagine como está toda a hotelaria nacional sofrendo com essa concorrência predatória e sem nada semelhante no mundo.
Os reflexos nocivos são fruto de uma desordem absoluta, de uma proliferação de novos produtos, que além de não gerarem empregos e trazerem divisas, ainda enfraquecem a base hoteleira instalada à base de sacrifício e investimentos permanentes.
O assunto tem sido colocado de forma ordenada pelos líderes hoteleiros e ganhado atenção dos parlamentares contra esta farra que este ano colocará 15 navios estrangeiros no litoral brasileiro. É como se a Flórida fosse arrastada magicamente para o nosso litoral em toda alta estação e sugasse os nossos turistas e as nossas divisas. Uma concorrência predatória que pode ter na ação do Ministério do Turismo uma solução.