segunda-feira

O confronto não é apenas com os resorts, mas com toda a hotelaria


Criada há menos de um ano, logo após as primeiras manifestações de protesto da hotelaria sobre o impacto da proliferação dos cruzeiros marítimos na costa brasileira, a Abremar (Associação Brasileira de Representantes de Empresas Marítimas), que é formada por apenas 14 associados, encontrou uma forma inusitada de responder ao editorial da última edição do Jornal de Turismo, que alertava sobre a necessidade de existir uma contrapartida para as operações marítimas que promovem a evasão de divisas. A entidade fez um e-mail circular para 25 destinatários, todos da cadeia de distribuição do turismo, no qual encaminha a sua resposta e faz um apelo para que as vendas continuem.
Antes de entrar no mérito da carta resposta, o próprio teor do e-mail circular merece algumas considerações. Nele, Eduardo Vampré do Nascimento faz as seguintes afirmações: "A campanha patrocinada pelos resorts chega ao cúmulo do exagero no artigo do Cláudio Magnavita que respondemos. Agentes de viagens não deixem que inverdades e falsas acusações venham a prejudicar a enorme receita das agências com as comissões sobre os cruzeiros marítimos."
O presidente da associação naufraga na sua argumentação ao tentar justificar o editorial como fruto de uma campanha "patrocinada pelos resorts". Causa surpresa que um dos decanos do nosso turismo desconheça a postura independente do nosso veículo, que há mais de quatro décadas sempre teve um posicionamento combativo e corajoso. No caso em questão, o JT assume uma posição que é fruto do seu compromisso com a verdade e a informação. Apesar de considerar "inverdades e falsas acusações", uma leitura da carta-resposta do presidente do grupo de apenas 14 associados tão só reafirma tudo que foi dito no editorial, a começar pelo enfoque da evasão de divisas, que deu título ao artigo e está no cerne central da argumentação.
O texto distribuído não apenas reafirma que a venda de cruzeiros promove a evasão de divisas, como tenta amenizar o quadro afirmando que "Quem compra dólares do Banco Central está fazendo um grande favor. E o BC só tem de agradecer aos compradores, pois o baixo valor da moeda, por conta da falta de um grande mercado comprador, prejudica os grandes setores exportadores nacionais. Foi-se o tempo em que havia escassez de moeda. Naqueles tempos idos, gastar em moeda forte era, isso sim, danoso para a balança comercial. O ideal, em termos econômicos, seria o equilíbrio. Mas esta é outra história." Curioso é como a argumentação navega a favor dos ventos do oportunismo. Trata-se de uma argumentação esdrúxula, principalmente pelo fato do Brasil ser um país pobre, que tem que fomentar o turismo interno e tentar atrair receita internacional ao invés de transferir riquezas para economias mais abastadas. Precisamos sim, que os turistas estrangeiros desembarquem no Brasil – e neste caso a Embratur está fazendo um trabalho louvável - trazendo divisas e que não sangre as nossas reservas para que reeditemos o tempo de escassez de moeda. Achar que aquele que compra dólares no Banco Central e vai gastar na Espanha ou em Paris está fazendo um favor ao País é lamentável, típico de uma geração que não se importava com o desequilíbrio da nossa balança comercial, por estar lastreado com reservas no exterior.
Na carta, a associação de 14 membros afirma ainda: "O argumento torna-se ainda mais inconsistente quando se constata que as grandes cadeias proprietárias de hotéis e resorts são estrangeiras e, por conseguinte, são levadas a remeter dividendos e lucros para o exterior." Apesar de demonstrar estudar melhor os números alheios do que os próprios, a informação peca, quando confunde bandeira de operação com propriedade. No caso de Sauípe as bandeiras internacionais estão ancoradas em um empreendimento 100% nacional, que pertence a sócios brasileiros e o mesmo ocorre com o Club Med. Os hotéis portugueses geram empregos aqui e promoveram a entrada de divisas como investimento, sem falar das redes nacionais e bandeiras como Othon e Plaza. Os que são de foram vieram para ficar e não apenas atuar na alta estação. Uma das estratégias na defesa do setor marítimo é limitar a disputa legal entre cruzeiros x resorts, o que é um grande erro. Os prejudicados são todos os meios de hospedagens, inclusive as pequenas pousadas familiares de Fernando de Noronha. É um embate com milhares de pequenas vítimas e não a briga com os grandes grupos hoteleiros. O caso é mais sério do que se pode imaginar.
Depois de decorrer e fazer um raio-x sobre o que ocorre no mundo da hotelaria, a carta da entidade de 14 sócios afirma, sobre o nosso questionamento da não apresentação dos seus números, que: "como representamos um negócio relativamente novo no Brasil e nossa entidade ainda não completou um ano de vida, não temos todos os números que gostaríamos de ter, mas estamos empenhados em obtê-los com a maior precisão. E daremos a eles a maior visibilidade, pois sabemos que, entre os segmentos de turismo, o que mais cresce no mundo é o cruzeiros marítimos." É a primeira vez que a humildade aparece no texto resposta, repleto de soberba e que muitas vezes tenta ensinar como os hoteleiros deveriam gerir o seu negócio, ou os jornalistas escreverem os seus artigos. Só que neste cabedal de lições, o capítulo "defesa da atividade hoteleira contra o ataque predador" é subtraída. Os hoteleiros não têm direito de espernear e protestar, o País não precisa poupar divisas. Com esta correspondência, fica clara que a farra dos dólares é o lastro que sustenta esta atividade que promove uma concorrência desleal com aqueles que ficam aqui durante todo o ano e não aparecem apenas no melhor da festa.
Na quixotesca tentativa de defender o indefensável, que muitas vezes leva à intempestivas saídas de cena e abandono de fóruns onde argumentações contestatórias são levadas para o plano pessoal, a Abremar acaba afogando o bom senso até na defesa de um dos 14 associados. Para defender 13, sacrifica-se a maior delas, a CVC, ao afirmar que ela "é a única que traz os seus navios vazios da Europa.". Por que atirar este arpão? A CVC é a única que traz contrapartida. Possui hotéis, traz turistas do exterior, está abrindo uma rede internacional para vender o Brasil e tem a contrapartida que os outros evitam falar. No início de maio, os donos de pousadas familiares de Fernando de Noronha se reuniram com Guilherme Paulus e acordaram uma série de apoios, que inclui até a produção de brochuras no exterior, principalmente no mercado francês.
Na correspondência, a neo-entidade diz ainda que"Afirmar que a CVC, esta grande operadora brasileira, é a única que se enquadra na geração de empregos locais, é outra sandice, pois se colocam no baú do esquecimento as milhares de agências de viagens que vendem a ocupação de resorts e hotéis e promovem o crescimento deste setor." A empáfia da argumentação foge mais uma vez da razão. Dos 14 integrantes da associação que tem menos de um ano de fundada, só a CVC é que possui mecanismos que compensam o fretamento do navio, com lastros de geração de emprego e divisas para o mercado doméstico. A Iberostar também tem um perfil semelhante, e com o mérito de ter a contrapartida de um navio construído no Brasil e navegando todo o ano na Amazônia, além de um parque hoteleiro. Não é sem razão que os dois grupos formam uma aliança dentro deste micro-universo.
No trecho final da carta-resposta, abre-se uma perigosa comporta ao afirmar, com relação aos hotéis, que "falta, ainda, maior cuidado na implantação de projetos que ferem o patrimônio natural, invadindo áreas de proteção ambiental." Será que a entidade, ao mirar os hotéis, não está esquecendo do impacto ambiental causado pelos navios em santuários como Búzios, Fernando de Noronha, Paraty e Florianópolis? Se a hotelaria tornar pública as argumentações dos ambientalistas sobre os navios, a pressão poderá ser ainda maior.
O curioso é que a carta-resposta preocupa-se mais com o camarão, citado como exemplo de protecionismo e que nos foi passado por um hoteleiro, que, ao investir em marinocultura teve de se desdobrar para entrar no mercado norte-americano, do que falar da obrigatoriedade de uma cota para a venda a não-residentes. Os cruzeiros no Caribe são um modelo que poderíamos ter, só que lá eles não vendem pacotes para os caribenhos, mas para norte-americanos, europeus e até brasileiros, promovendo a entrada de divisa e gerando receita. Aqui, querem vender cruzeiros só para quem ganha em reais.
Uma das preocupações do setor hoteleiro, que tem como grande aliado o ex-ministro do Trabalho e hoje senador Francisco Dornelles (PP-RJ), é sobre o rigoroso cumprimento das regras trabalhistas que estabeleciam cotas progressivas que foram atreladas ao desembarque da cabotagem estrangeira em águas brasileiras.
A redação final da Lei Geral do Turismo será a grande chance para a solução deste impasse e a mobilização da hotelaria como um todo já esta ocorrendo. O assunto foi inclusive colocado na recente audiência de lideres do turismo com o ministro das Relações Institucionais, Walfrido dos Mares Guias, no Palácio do Planalto, pelo presidente da ABIH, Eraldo Alves da Cruz.
Por mais paradoxal que seja, não somos contra os cruzeiros nos portos brasileiros, mas sim a favor de uma regulamentação que traga obrigatoriamente uma contrapartida com turistas estrangeiros a bordo, com uma fiscalização trabalhista rigorosa e com serviços que sejam permanentes (como é o caso do Pacific, da CVC e do Gran Amazon, da Iberostar) e que não tenham apenas o faturamento oportunista da alta estação.