segunda-feira

Varig e o tom fatalista na imprensa

(Gazeta Mercantil - Opinião - 26/4/2006)

26 de Abril de 2006 - Quem voou pela empresa nos últimos dias não acredita em alguns meios. Nunca uma empresa privada foi alvo de campanha e de manchetes tão violentas levadas a efeito simultaneamente e de forma sincronizada em defesa do fim da companhia e dos seus quase 10 mil postos de trabalho.
Será necessário que o mundo acadêmico analise o comportamento de tantos meios da imprensa brasileira no caso Varig. Neste cenário, o professor Alberto Dines, um dos mais respeitados jornalistas brasileiros e que nos últimos anos tem analisado sem dó nem piedade o comportamento da nossa mídia, encontrará muita matéria-prima para o Observatório da Imprensa, que foi um projeto original do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e hoje é mantido pelo Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor).
Que tanto mal teria cometido a Varig para ser alvo de tamanha fúria? O jornal O Estado de S. Paulo defendeu, em editorial, o fim da companhia. A revista Veja elencou razões para o governo não ajudar a Varig. A Folha de S. Paulo chegou a anunciar o fim da empresa. O gaúcho Zero Hora deixou de lado o bairrismo e também decretou o fim próximo da sua conterrânea. Era como se todos torcessem para que o fim chegasse logo e houve até jornal que, em tom de obituário, resolveu contar a história da Varig no seu site. O mais grave é que, por ter os grandes jornais serviços noticiosos que alimentam a imprensa de todo o País, essas matérias ganharam espaço em dezenas de outros jornais no Brasil. Não obstante a "morte anunciada" nas manchetes, a empresa continuou voando, com aviões cheios, passageiros cativos e atendidos por cordiais tripulantes.
Por que tanto pessimismo e disposição de colocar a Varig no chão? O pior é que, por ser uma empresa privada e que depende do fluxo de passageiros, as próprias manchetes poderiam ter contribuído para se transformar em realidade. O sensacionalismo da mídia poderia ter provocado uma corrida, afastando de verdade os passageiros e iniciando um ciclo de sufocamento.
Num primeiro momento, o susto realmente aconteceu e a engrenagem quase foi travada. Não apenas o mercado ficou assustado com o noticiário – também o corpo funcional ficou abalado. Foi a primeira vez que a companhia sentiu solavanco tão forte na sua receita e no seu horizonte. Afinal, a morte da Varig era anunciada com dia e hora marcada. Quem imaginaria que a imprensa brasileira seria tão irresponsável a ponto de assumir tal postura? A credibilidade inicial das manchetes foi se evaporando com o passar do tempo.
O passar dos dias ajudou a superar a morte anunciada. De quinta pulou para a semana seguinte, e o fim não chegou como torciam os mórbidos jornalistas. Os primeiros acenos não vieram de Brasília, como se esperava, nem de nenhum entreposto do poder concedente. Pelo contrário, o governo federal jogou mais lenha na fogueira. A reversão do quadro se deu com uma corajosa postura do juiz titular da 8 Vara Empresarial, José Roberto Ayoub, que reuniu a imprensa e, ao contrário do que os repórteres nervosamente esperavam, não anunciou o fechamento da empresa, mas que tudo estava normal e que a Varig era viável. Na ante-sala do juiz, um jovem e nervoso advogado da BR Distribuidora, tremendo perante uma avalanche de microfones, anunciava que a estatal não iria dar prazo. Entre as palavras de bonança do experiente juiz e os comentários do jovem advogado, boa parte da imprensa preferiu dar sua manchete para a notícia ruim. A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) também fez sua parte com as palavras tranqüilizadoras do seu presidente, Milton Zuanazzi.
Neste contexto é necessário fazer justiça ao variguiano, o corpo funcional da companhia, que, mesmo vendo sua poupança previdenciária evaporar com a liquidação do Aerus e com os salários atrasados, está dando uma aula de civilidade e de amor à empresa. Todos estão unidos, trabalhando de forma ordenada e não deixando as manchetes virarem realidade. São poucas as companhias que possuem funcionários tão dedicados e fiéis – eles demonstram amor verdadeiro à estrela brasileira que colocam no peito. Quem voou na Varig nos últimos dias não pode acreditar nas manchetes. Os vôos saíram nos horários, o serviço de despacho foi atencioso, as bagagens chegaram, e tudo funcionou como sempre. Todos trabalhando com uma tremenda boa vontade. Quem desembarca contente de uma viagem com aviões cheios questiona na hora: por que tanta raiva da companhia?
A aviação que corre nas veias dos variguianos é patriótica e tem a cor verde-amarela. O refluxo das notícias positivas já voltou a acontecer e alguns veículos começaram a rever seu ponto de vista, procurando fazer-lhe justiça. Os passageiros mantiveram-se fiéis. Quem perde é a credibilidade da imprensa alarmista, que utiliza o poder das manchetes para crucificar sem nenhum remorso um dos símbolos internacionais do Brasil. Faltam-lhe patriotismo e amor à soberania dos fatos. A imprensa brasileira vive uma crise epidêmica, na qual toda uma geração parece compreender que só existe compromisso com o fatalismo e a necessidade de transformar a desgraça alheia em manchete, sem se importar com os sofrimentos e prejuízos que possam causar.

(Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 3)
(Cláudio Magnavita - Presidente nacional da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo, membro do Conselho Nacional de Turismo e diretor do "Jornal de Turismo")