Segunda-feira, 10 de Abril de 2006
A vulnerabilidade da Varig perante um governo assustado e sem saber o que fazer para resolver o problema que há anos está no seu colo desde o dia da posse é absoluta. Antes mesmo de assumir a presidência, o então presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva teve o assunto Varig incluído na sua agenda. De lá para cá o problema só cresceu, sem que houvesse uma expressa vontade política da sua solução.
Na verdade, o governo do PT herdou um problema mais grave, que foi a tentativa de assumir o comando da Varig no apagar das luzes do governo tucano, quando o ex-chefe da Casa Civil, Clóvis Carvalho, e o economista Mendonça de Barros foram encastelados no Conselho de Administração da empresa. Com a derrota de José Serra, os tucanos foram defenestrados e a Varig ficou entregue aos acenos de boa sorte do novo governo.
Na última sexta-feira, o alto escalão da companhia foi recebido pelo novo ministro da Defesa, Waldir Pires, no seu gabinete na Esplanada dos Ministérios. Antes de atendê-los, o presidente da Infraero, brigadeiro J. Carlos Pereira, foi chamado às pressas pelo novo titular da pasta. Na ante-sala do gabinete, toda forrada de madeira e ilustrada com livros de arte que contam a história das nossas Forças Armadas, os dirigentes da companhia, que entre cafezinhos e água gentilmente servidos por um engravatado garçom, torciam para que uma boa notícia fosse repassada. Estavam presentes: Marcelo Bottini (presidente-executivo), Humberto Rodrigues (presidente do Conselho de Administração), Luiz Vasco (Administrador Judicial), Marcelo Gomes (Alvarez & Marsal) e Delfim de Almeida (diretor da empresa em Brasília).
Na manhã da própria sexta, a presidente do Sindicato dos Aeronautas, Graziella Baggio, já havia passado pelo mesmo ritual, tendo uma primeira conversa com Waldir Pires, deixando a sala encantada com a fidalguia e forma carinhosa do ministro.
Chamados pelo ajudante de ordem o grupo de diretores da Varig se dirigiu ao gabinete ministerial. Waldir Pires, vestindo um terno claro e com um largo sorriso no rosto recebeu o grupo, que ansiosamente aguardava as boas novas. Acomodados na mesa de reunião, a conversa começou de forma afável, com o ministro falando baixo, em tom cardinalístico, gestos educados e preocupado em conhecer o problema dos seus interlocutores.
O Cardeal das nossas Forças Armadas fez logo uma confissão no início da sua fala. “Acabo de chegar e fui colhido por esta tsunami que é o caso Varig. Regressei de um almoço onde toda imprensa me cercava para falar da empresa”, disse.
Marcelo Bottini começou a sua explicação, rememorando a sua audiência com a ministra Dilma Russef, chefe da Casa Civil. Waldir anotava os pontos principais e fazia reflexões sobre algumas questões. Foi uma explicação didática e, ao invés de se obter fatos novos, todos tiveram a sensação, pelas perguntas realizadas pelo ministro, que tudo tinha voltado à estaca zero. Ou seja, o caso teria de ser novamente explicado, passo a passo, até mesmo os acontecimentos que foram manchetes nos jornais, como o caso da venda da VEM para a TAP e da VarigLog para a Volo.
Marcelo Gomes, o representante da Alvarez & Marsal, companhia contratada para gestão da empresa através do Plano de Recuperação, fez uma lúcida apresentação, colocando os pingos nos “is”. A Varig não queria ajuda, queria apenas que a BR Distribuidora e a Infraero enxergassem a Varig como um cliente que precisa de crédito, relembrando todo o histórico da empresa como geradora de caixa para as duas estatais.
A cada 15 minutos, as badaladas do grande relógio que emoldura o gabinete, espartanamente decorado, aumentava a angústia dos interlocutores. Percebendo o interesse do ministro em entender a tsunami na qual está surfando, o administrador judicial, Luiz Vasco, traçou no seu bloco um gráfico, com o organograma da gestão judicial da Varig, deixando ainda mais didático a explicação sobre o processo de recuperação judicial e o papel da Oitava Vara Empresarial no caso.
O ministro relembrou os seus tempos de parlamentar e da sua preocupação com a evasão de divisas, através das remessas de lucros realizadas por empresas estrangeiras, que tomaram o lugar das companhias nacionais. Pires lembrou também a abertura dos nossos céus para a concorrência de grandes empresas aéreas internacionais. Captando as emanações verde-amarelas do titular da Defesa, o presidente do Conselho de Administração, Humberto Rodrigues relembrou o patriotismo da Varig nas suas operações internacionais.
Surpreendeu-se Waldir, com o fato da Varig gerar mais de US$ 1 bilhão por ano em divisas internacionais para o Brasil. Ficou ainda mais surpreso com as informações sobre as vitórias nos processos de defasagem tarifária e ICMS.
As badaladas do relógio continuavam a aumentar a angústia e na porta do Ministério da Defesa já se concentravam duas dezenas de jornalistas, cinegrafistas e fotógrafos, ávidos pelas boas novas que sairiam do encontro.
No final, o pedido de um registro fotográfico do encontro foi paradoxalmente negado por Pires, que argumentou não querer aumentar frustrações, preferindo deixar-se fotografar quando algo de concreto for anunciado.
Os interlocutores deixaram a sala ainda sob o efeito carismático do cardeal das nossas Forças Armadas e tendo de remodular a sua freqüência, que tinha sido colocada em volume máximo, para captar as emanações quase de murmúrio do ex-exilado, ex-governador da Bahia e ex-candidato a vice-presidente na chapa de Ulisses Guimarães, agora comandando as Forças Armadas, as mesmas que no passado o obrigaram a morar fora do País.
O ritual estava cumprido, a continência ao novo ministro já havia sido batida, restava a diretoria da Varig enfrentar a imprensa, sabendo que as negociações haviam voltado à escala zero. Pela manhã, o próprio ministro já havia revelado a Graziela Baggio que iria procurar o seu antecessor, José Alencar, para tentar compreender ainda mais o que estava acontecendo.
A audiência refletia um quadro muito comum nos últimos meses. Nada de concreto por parte do governo. É como se a crise da Varig não fosse resultado das inúmeras interferências do poder concedente na vida da própria companhia. O governo parece agir como se não soubesse o que fazer. O que a Varig precisa é de definições. O que não pode é viver no limbo de um imobilismo federal, como se a empresa não fosse uma concessão pública. Entre os cadáveres insepulcros da nossa aviação, além da Transbrasil e da Vasp está também o da Panair do Brasil. Espera-se algo concreto e objetivo. O ano é eleitoral e a Varig poderá se transformar em um caso de comoção nacional, esta sim uma verdadeira tsunami capaz de punir aqueles que por omissão e desconhecimento permitiram uma das mais importantes marcas brasileiras no exterior se esfacelar em pleno ar.
Claudio MagnavitaPresidente Nacional da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo, membro do Conselho Nacional de Turismo e Diretor do Jornal de Turismo.
A vulnerabilidade da Varig perante um governo assustado e sem saber o que fazer para resolver o problema que há anos está no seu colo desde o dia da posse é absoluta. Antes mesmo de assumir a presidência, o então presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva teve o assunto Varig incluído na sua agenda. De lá para cá o problema só cresceu, sem que houvesse uma expressa vontade política da sua solução.
Na verdade, o governo do PT herdou um problema mais grave, que foi a tentativa de assumir o comando da Varig no apagar das luzes do governo tucano, quando o ex-chefe da Casa Civil, Clóvis Carvalho, e o economista Mendonça de Barros foram encastelados no Conselho de Administração da empresa. Com a derrota de José Serra, os tucanos foram defenestrados e a Varig ficou entregue aos acenos de boa sorte do novo governo.
Na última sexta-feira, o alto escalão da companhia foi recebido pelo novo ministro da Defesa, Waldir Pires, no seu gabinete na Esplanada dos Ministérios. Antes de atendê-los, o presidente da Infraero, brigadeiro J. Carlos Pereira, foi chamado às pressas pelo novo titular da pasta. Na ante-sala do gabinete, toda forrada de madeira e ilustrada com livros de arte que contam a história das nossas Forças Armadas, os dirigentes da companhia, que entre cafezinhos e água gentilmente servidos por um engravatado garçom, torciam para que uma boa notícia fosse repassada. Estavam presentes: Marcelo Bottini (presidente-executivo), Humberto Rodrigues (presidente do Conselho de Administração), Luiz Vasco (Administrador Judicial), Marcelo Gomes (Alvarez & Marsal) e Delfim de Almeida (diretor da empresa em Brasília).
Na manhã da própria sexta, a presidente do Sindicato dos Aeronautas, Graziella Baggio, já havia passado pelo mesmo ritual, tendo uma primeira conversa com Waldir Pires, deixando a sala encantada com a fidalguia e forma carinhosa do ministro.
Chamados pelo ajudante de ordem o grupo de diretores da Varig se dirigiu ao gabinete ministerial. Waldir Pires, vestindo um terno claro e com um largo sorriso no rosto recebeu o grupo, que ansiosamente aguardava as boas novas. Acomodados na mesa de reunião, a conversa começou de forma afável, com o ministro falando baixo, em tom cardinalístico, gestos educados e preocupado em conhecer o problema dos seus interlocutores.
O Cardeal das nossas Forças Armadas fez logo uma confissão no início da sua fala. “Acabo de chegar e fui colhido por esta tsunami que é o caso Varig. Regressei de um almoço onde toda imprensa me cercava para falar da empresa”, disse.
Marcelo Bottini começou a sua explicação, rememorando a sua audiência com a ministra Dilma Russef, chefe da Casa Civil. Waldir anotava os pontos principais e fazia reflexões sobre algumas questões. Foi uma explicação didática e, ao invés de se obter fatos novos, todos tiveram a sensação, pelas perguntas realizadas pelo ministro, que tudo tinha voltado à estaca zero. Ou seja, o caso teria de ser novamente explicado, passo a passo, até mesmo os acontecimentos que foram manchetes nos jornais, como o caso da venda da VEM para a TAP e da VarigLog para a Volo.
Marcelo Gomes, o representante da Alvarez & Marsal, companhia contratada para gestão da empresa através do Plano de Recuperação, fez uma lúcida apresentação, colocando os pingos nos “is”. A Varig não queria ajuda, queria apenas que a BR Distribuidora e a Infraero enxergassem a Varig como um cliente que precisa de crédito, relembrando todo o histórico da empresa como geradora de caixa para as duas estatais.
A cada 15 minutos, as badaladas do grande relógio que emoldura o gabinete, espartanamente decorado, aumentava a angústia dos interlocutores. Percebendo o interesse do ministro em entender a tsunami na qual está surfando, o administrador judicial, Luiz Vasco, traçou no seu bloco um gráfico, com o organograma da gestão judicial da Varig, deixando ainda mais didático a explicação sobre o processo de recuperação judicial e o papel da Oitava Vara Empresarial no caso.
O ministro relembrou os seus tempos de parlamentar e da sua preocupação com a evasão de divisas, através das remessas de lucros realizadas por empresas estrangeiras, que tomaram o lugar das companhias nacionais. Pires lembrou também a abertura dos nossos céus para a concorrência de grandes empresas aéreas internacionais. Captando as emanações verde-amarelas do titular da Defesa, o presidente do Conselho de Administração, Humberto Rodrigues relembrou o patriotismo da Varig nas suas operações internacionais.
Surpreendeu-se Waldir, com o fato da Varig gerar mais de US$ 1 bilhão por ano em divisas internacionais para o Brasil. Ficou ainda mais surpreso com as informações sobre as vitórias nos processos de defasagem tarifária e ICMS.
As badaladas do relógio continuavam a aumentar a angústia e na porta do Ministério da Defesa já se concentravam duas dezenas de jornalistas, cinegrafistas e fotógrafos, ávidos pelas boas novas que sairiam do encontro.
No final, o pedido de um registro fotográfico do encontro foi paradoxalmente negado por Pires, que argumentou não querer aumentar frustrações, preferindo deixar-se fotografar quando algo de concreto for anunciado.
Os interlocutores deixaram a sala ainda sob o efeito carismático do cardeal das nossas Forças Armadas e tendo de remodular a sua freqüência, que tinha sido colocada em volume máximo, para captar as emanações quase de murmúrio do ex-exilado, ex-governador da Bahia e ex-candidato a vice-presidente na chapa de Ulisses Guimarães, agora comandando as Forças Armadas, as mesmas que no passado o obrigaram a morar fora do País.
O ritual estava cumprido, a continência ao novo ministro já havia sido batida, restava a diretoria da Varig enfrentar a imprensa, sabendo que as negociações haviam voltado à escala zero. Pela manhã, o próprio ministro já havia revelado a Graziela Baggio que iria procurar o seu antecessor, José Alencar, para tentar compreender ainda mais o que estava acontecendo.
A audiência refletia um quadro muito comum nos últimos meses. Nada de concreto por parte do governo. É como se a crise da Varig não fosse resultado das inúmeras interferências do poder concedente na vida da própria companhia. O governo parece agir como se não soubesse o que fazer. O que a Varig precisa é de definições. O que não pode é viver no limbo de um imobilismo federal, como se a empresa não fosse uma concessão pública. Entre os cadáveres insepulcros da nossa aviação, além da Transbrasil e da Vasp está também o da Panair do Brasil. Espera-se algo concreto e objetivo. O ano é eleitoral e a Varig poderá se transformar em um caso de comoção nacional, esta sim uma verdadeira tsunami capaz de punir aqueles que por omissão e desconhecimento permitiram uma das mais importantes marcas brasileiras no exterior se esfacelar em pleno ar.
Claudio MagnavitaPresidente Nacional da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo, membro do Conselho Nacional de Turismo e Diretor do Jornal de Turismo.